A próxima fronteira das fintechs angolanas está fora da Internet

Mauro Yange
Leitura de 6 min
Imagem: Divulgação/YoungNetwork Angola

A YoungNetwork Angola lançou a Lupa, uma publicação semanal que resume, numa página, um estudo ou uma tendência sobre o digital no país. A primeira edição, divulgada a 27 de Outubro, revela que 21,7 milhões de pessoas, correspondentes a 55,2% da população, não usam Internet, apesar de Angola contar já com 30,6 milhões de ligações móveis. Os números levantam uma questão importante para bancos, emitentes de moeda electrónica e fintechs: como chegar a milhões de potenciais clientes que continuam fora do mundo digital?

Os dados têm como base o relatório Digital 2026: Angola, da DataReportal, elaborado com contributos da Kepios, We Are Social e Meltwater, e a Ronda 10 do Afrobarómetro. Segundo a Lupa, 44,8% da população usa Internet, o equivalente a 17,6 milhões de pessoas, mais 518 mil do que um ano antes. As ligações móveis correspondem a 77,8% da população e 94,9% já são 3G, 4G ou 5G.

O telemóvel chegou antes da internet

A existência de ligações móveis não significa que toda a população tenha acesso efectivo à Internet. Em Angola, a diferença entre a disponibilidade de serviços móveis e a sua utilização continua a representar um obstáculo à expansão da economia digital.

“Em Angola, o telemóvel chegou antes da internet. O país está meio ligado e um bom plano de comunicação serve as duas metades”, afirma Alexandra Lopes, directora-geral da YoungNetwork Angola, citada no comunicado de lançamento.

A desigualdade entre as zonas urbanas e rurais é um dos dados mais expressivos. De acordo com o Afrobarómetro, que inquiriu 1.200 adultos em 2024, 76,9% dos adultos urbanos têm telemóvel e 53,4% possuem um telemóvel com acesso à Internet. Nas zonas rurais, os valores descem para 32,8% e 8,4%, respectivamente. No conjunto, 27,5% dos adultos usam Internet diariamente, enquanto 46,5% nunca a utilizam.

Esta realidade obriga as fintechs a repensarem as suas estratégias de expansão. Uma aplicação móvel pode funcionar bem para os clientes conectados, mas dificilmente será suficiente para alcançar populações com acesso limitado à Internet ou sem smartphones.

Pagamentos digitais crescem na metade ligada

Os números da Lupa ajudam a compreender o crescimento recente dos pagamentos digitais em Angola. No primeiro semestre de 2026, o Multicaixa Express processou 13,44 biliões de kwanzas, mais 61,7% do que no período homólogo, e contava com cerca de 3,2 milhões de utilizadores, segundo dados da EMIS.

Em Julho, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, indicou uma taxa de inclusão financeira de 51,7% no primeiro trimestre de 2026 e uma taxa de bancarização de 32%.

Apesar destes avanços, a expansão dos serviços financeiros digitais continua condicionada pelo acesso à conectividade. Com mais de metade da população fora da Internet e apenas 8,4% dos adultos rurais a terem telemóvel com acesso à rede, soluções que não dependam de dados móveis permanentes continuam a ser importantes.

Os menus USSD, as redes de agentes e os pagamentos por referência podem ajudar a levar serviços financeiros a populações que dificilmente serão alcançadas apenas através de aplicações móveis. Para as fintechs, o desafio passa por combinar inovação tecnológica com soluções acessíveis, simples e adaptadas à realidade dos diferentes segmentos da população.

Uma população jovem e oportunidades de crescimento

A Lupa destaca ainda que 50,8% da população angolana tem menos de 18 anos e que a idade mediana é de 16,6 anos. Esta estrutura demográfica representa uma oportunidade para o sector financeiro digital, uma vez que uma nova geração de potenciais clientes chegará progressivamente à idade adulta.

No entanto, a dimensão da população jovem não garante, por si só, a adesão aos serviços digitais. O acesso à Internet, a literacia financeira, a confiança nos serviços electrónicos e a capacidade de utilizar ferramentas digitais serão factores importantes para transformar esse potencial em clientes efectivos.

As fintechs que conseguirem combinar educação financeira, facilidade de utilização e custos acessíveis poderão estar melhor posicionadas para conquistar novos segmentos de mercado.

Infografia da Lupa da YoungNetwork Angola com os principais números do digital em Angola
A primeira edição da Lupa da YoungNetwork Angola. Infografia: YoungNetwork Angola (dados DataReportal e Afrobarómetro)

A próxima fronteira está na inclusão digital

A primeira edição da Lupa da YoungNetwork Angola mostra que o crescimento das ligações móveis e dos pagamentos digitais não elimina as desigualdades no acesso à Internet. Para as fintechs angolanas, esta diferença representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade.

O crescimento sustentável do sector dependerá não apenas da capacidade de desenvolver aplicações e serviços para utilizadores conectados, mas também de encontrar formas de servir quem permanece offline. Isso exige soluções tecnológicas adequadas, redes de agentes, parcerias com operadores de telecomunicações e estratégias de educação financeira e digital.

Num mercado em que milhões de pessoas continuam sem utilizar a Internet, a próxima etapa da inovação financeira poderá não consistir apenas em criar serviços mais avançados, mas em tornar os serviços existentes acessíveis a quem ainda não consegue utilizá-los.A Lupa nasceu em Portugal em Outubro de 2026 e chega agora em simultâneo a Angola e a Moçambique. As edições estão disponíveis em lupa.youngnetworkgroup.com.

Fontes: Lupa da YoungNetwork Angola (DataReportal, Digital 2026: Angola; Afrobarómetro, Ronda 10), EMIS/Carta de Angola e Mercado

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Colunista, profissional de Merketing e evangelista de startups há quase 15 anos