África já tem 36 sistemas de pagamentos instantâneos, o próximo desafio é fazê-los conversar

Dioko
Leitura de 6 min

O continente africano já construiu uma parte importante da infraestrutura para os pagamentos digitais. Agora, o desafio é transformar dezenas de sistemas nacionais em uma rede verdadeiramente interoperável. África já não está a começar do zero na corrida pelos pagamentos instantâneos.

O continente possui actualmente 36 sistemas de pagamentos instantâneos activos em 31 países, segundo o relatório State of Inclusive Instant Payment Systems in Africa 2025, produzido pela AfricaNenda em parceria com o Banco Mundial e a UNECA.

Em 2024, esses sistemas processaram mais de 64 mil milhões de transacções, avaliadas em quase 2 biliões de dólares. Os números mostram uma transformação profunda, mas também revelam o próximo grande problema: ter sistemas instantâneos em vários países não significa que esses sistemas consigam comunicar entre si.

De sistemas nacionais para uma rede continental

Durante os últimos anos, vários países africanos concentraram esforços na criação de infraestruturas nacionais. Angola possui o Sistema de Transferências Instantâneas (STI), operado pela EMIS, com o KWiK como ecossistema de pagamentos conta-a-conta instantâneos.

A arquitectura do STI procura ligar bancos e Prestadores de Serviços de Pagamentos não bancários, incluindo operadores de mobile money, além de criar uma base para serviços de Open Banking. Os resultados já são relevantes.

Em Agosto de 2026, o KWiK processou 4,48 milhões de transferências, movimentando 123,85 mil milhões de kwanzas, com crescimento anual de 53,3% no número de operações.

O mesmo acontece noutras economias africanas, o problema começa quando uma operação precisa de atravessar uma fronteira. Uma transferência de Angola para Moçambique, do Quénia para a Nigéria ou da África do Sul para o Gana envolve diferentes moedas, reguladores, sistemas de compensação, regras de compliance e infraestruturas tecnológicas. É aqui que a interoperabilidade continental ganha importância.

O próximo desafio não é velocidade

Os pagamentos instantâneos resolveram grande parte do problema da velocidade, o dinheiro pode agora circular em segundos, 24 horas por dia, mas uma economia digital não funciona apenas com velocidade. É necessário garantir que diferentes sistemas consigam identificar o beneficiário, encaminhar a transacção, converter moedas, liquidar os valores e gerir riscos, mesmo quando os participantes estão em países diferentes.

Por isso, o conceito de interoperabilidade está a ganhar uma importância crescente, não basta o banco A conseguir transferir dinheiro para o banco B dentro do mesmo país. O objectivo passa a ser permitir que o utilizador de um sistema consiga efectuar uma operação para alguém que utiliza outro sistema, noutro país, sem enfrentar uma experiência radicalmente diferente.

O exemplo do Quénia

A evolução recente do Quénia mostra que a interoperabilidade está também a tornar-se uma prioridade regulatória., a Payment System Vision 2028, apresentada pelo Tesouro Nacional queniano, procura aproximar os sistemas bancários das plataformas de mobile money e criar um ecossistema mais integrado entre bancos, operadores móveis e fintechs.

A estratégia está associada a uma proposta de novo National Payment System Bill, destinada a actualizar o quadro regulatório dos serviços de pagamento. O caso queniano é relevante porque mostra que a interoperabilidade não é apenas uma questão tecnológica, é também uma questão de regulação, concorrência, protecção do consumidor e desenho do mercado.

Angola também está a construir essa base

Angola já possui uma das peças necessárias para participar nesta evolução, a EMIS descreve o STI como uma infraestrutura destinada a assegurar a interoperabilidade conta-a-conta entre PSP bancários e não bancários. O sistema também foi concebido para funcionar como plataforma para serviços de Open Banking.

Isso significa que a discussão sobre pagamentos em Angola pode evoluir. A questão já não deve ser apenas quantas transacções o KWiK processa, deve incluir perguntas como:

  • Com que sistemas africanos poderá o KWiK comunicar?
  • Como serão efectuadas as liquidações entre moedas?
  • Como serão tratados os requisitos de compliance?
  • Quanto custará uma transferência internacional instantânea? E, sobretudo, como garantir que uma operação iniciada em Angola tenha a mesma previsibilidade quando chega a outro mercado africano?

PAPSS pode ser uma das peças

O Pan-African Payment and Settlement System (PAPSS) surge neste contexto como uma das principais infraestruturas destinadas a facilitar pagamentos transfronteiriços africanos. lógica é diferente de simplesmente criar mais um sistema nacional.

O objectivo é criar mecanismos que permitam realizar pagamentos entre países africanos utilizando as respectivas moedas locais e reduzindo a dependência de intermediários externos, mas PAPSS não elimina a necessidade de os sistemas nacionais evoluírem. Pelo contrário, quanto melhor forem as infraestruturas domésticas, maior será a capacidade de integração com redes regionais e continentais.

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