As receitas mundiais dos pagamentos deverão crescer a um ritmo mais moderado até 2030. Para as fintechs, bancos e prestadores de serviços, a nova fase exige maior eficiência operacional, diferenciação tecnológica e modelos de negócio sustentáveis. África continua entre as regiões com melhores perspectivas de crescimento.
O sector mundial dos pagamentos está a entrar numa nova fase. Depois de vários anos de forte expansão, as empresas terão de enfrentar um crescimento mais moderado das receitas e uma pressão crescente sobre os custos operacionais. O desafio já não consiste apenas em conquistar utilizadores, aumentar o número de transacções ou expandir a aceitação dos pagamentos digitais. As empresas precisam de demonstrar que conseguem transformar esse crescimento em receitas sustentáveis e resultados financeiros consistentes.
A tendência consta dos relatórios anuais da Boston Consulting Group (BCG), que acompanham a evolução da indústria mundial dos pagamentos. Na edição de 2025, a consultora previa que o crescimento anual das receitas abrandasse de 8,8% para 4% até 2029.
Na edição de 2026, a previsão aponta para um crescimento médio anual de 5% entre 2025 e 2030, abaixo dos 7% registados nos cinco anos anteriores. Apesar da desaceleração, as receitas mundiais deverão atingir cerca de 2,6 biliões de dólares até ao final da década. Os números mostram uma mudança importante. O mercado continuará a expandir-se, mas as empresas não poderão depender exclusivamente do crescimento geral dos pagamentos digitais para garantir a rentabilidade.
Porque está o crescimento a abrandar?
Durante vários anos, a indústria beneficiou de factores que impulsionaram as receitas. A substituição do numerário por pagamentos electrónicos, o crescimento do comércio digital e o aumento das transacções criaram novas oportunidades para bancos, redes de cartões e fintechs.
As taxas de juro elevadas também favoreceram determinadas fontes de rendimento associadas aos depósitos e à gestão de fundos. Em paralelo, muitas empresas expandiram os seus serviços e conquistaram novos segmentos de clientes. Contudo, alguns destes factores estão a perder força. Nos mercados mais maduros, a transição do dinheiro físico para os pagamentos digitais já avançou significativamente. O crescimento continua, mas parte da expansão mais fácil já aconteceu.
A concorrência também se intensificou. Novos sistemas de pagamento, transferências instantâneas e soluções digitais de menor custo pressionam as comissões cobradas por algumas operações.
Esta evolução obriga os prestadores de serviços a rever os seus modelos de negócio. Uma empresa que depende exclusivamente de cobrar uma comissão por transacção pode enfrentar dificuldades quando os concorrentes oferecem alternativas mais baratas ou quando os clientes passam a ter maior poder de negociação.
O abrandamento não significa, portanto, que os pagamentos digitais estejam a perder relevância. Significa que o sector está a mudar e que as fontes de crescimento e rentabilidade precisam de ser repensadas.
África continua a apresentar oportunidades
Apesar das perspectivas de desaceleração global, o crescimento deverá variar entre regiões. Segundo as projecções da BCG para 2025–2030, o Médio Oriente e África poderão registar um crescimento anual de aproximadamente 8% nas receitas dos pagamentos. A América Latina deverá crescer cerca de 7%, enquanto a América do Norte e a Europa deverão apresentar taxas próximas de 5%.
Estas estimativas abrangem mercados com níveis de maturidade, estruturas económicas e sistemas financeiros diferentes. Não devem ser interpretadas como uma previsão uniforme para todos os países africanos. Ainda assim, a perspectiva regional destaca oportunidades associadas à expansão dos pagamentos electrónicos, à inclusão financeira, ao comércio digital e à modernização das infra-estruturas financeiras.
Em vários mercados africanos, o desenvolvimento de serviços de dinheiro móvel e de sistemas de transferências instantâneas tem permitido criar alternativas aos canais tradicionais. Estas soluções podem facilitar pagamentos de baixo valor, transferências entre particulares e operações comerciais.
A oportunidade não se limita à conquista de novos utilizadores. Existe também espaço para desenvolver serviços destinados às pequenas e médias empresas, incluindo facturação digital, reconciliação de pagamentos, gestão de tesouraria e integração de diferentes canais de cobrança.
Para Angola, estas tendências merecem atenção. A expansão dos pagamentos digitais poderá abrir espaço para novos modelos de negócio, sobretudo quando as soluções respondem a necessidades concretas de consumidores e empresas.
Contudo, o potencial do mercado não garante resultados automáticos. A adopção depende de factores como a confiança, a cobertura dos serviços, a facilidade de utilização, os custos das operações e a interoperabilidade entre plataformas.
Angola precisa de transformar a digitalização em valor económico
O desenvolvimento do ecossistema angolano de pagamentos deve ser analisado para além do número de cartões emitidos, contas abertas ou transacções realizadas. A digitalização cria valor quando reduz os custos das operações, facilita o acesso aos serviços financeiros, melhora a experiência dos utilizadores e permite às empresas gerir melhor os seus recursos.
Para as fintechs angolanas, isso significa identificar problemas que continuam por resolver. Pequenos comerciantes podem precisar de ferramentas de cobrança e reconciliação mais simples. Empresas podem procurar soluções que integrem pagamentos, facturação e controlo financeiro. Os consumidores podem valorizar serviços rápidos, seguros e acessíveis.
A oportunidade está em desenvolver produtos que respondam a estas necessidades sem criar estruturas de custos demasiado pesadas. A interoperabilidade também assume um papel importante. Quando diferentes sistemas conseguem comunicar entre si, os utilizadores podem realizar operações com menos barreiras e as empresas podem ampliar o alcance dos seus serviços.
Em contrapartida, plataformas isoladas podem limitar a adopção e aumentar os custos de integração. Para o mercado angolano, a cooperação entre instituições financeiras, operadores de pagamentos e empresas tecnológicas será relevante para construir serviços mais úteis e abrangentes.
Estas possibilidades não significam que Angola acompanhe automaticamente as taxas de crescimento previstas para o continente. O país precisa de desenvolver condições próprias para converter a procura por serviços digitais em actividade económica sustentável.



