O crescimento dos pagamentos digitais em África já não depende apenas da possibilidade de enviar dinheiro pelo telemóvel. A próxima etapa passa por transformar as carteiras digitais em instrumentos regulares para pagar despesas essenciais, incluindo água, electricidade e outros serviços públicos.
Esta é a principal mensagem de uma análise publicada pela ICTworks, a 20 de Outubro de 2026. O artigo defende que a expansão do dinheiro móvel (mobile money) continuará limitada enquanto muitos consumidores recorrerem ao dinheiro físico para liquidar as suas facturas mensais.
A questão ultrapassa a disponibilidade de aplicações financeiras. Os consumidores precisam de confirmar que o dinheiro chegou efectivamente ao prestador do serviço. Também precisam de pagar comissões compatíveis com o valor das suas despesas.
Para Angola, esta discussão abre uma oportunidade para aproximar os pagamentos electrónicos dos serviços públicos e reforçar a utilização quotidiana das infra-estruturas financeiras nacionais.
O crescimento dos pagamentos digitais ainda enfrenta limitações
Os serviços de dinheiro móvel tornaram-se uma ferramenta importante para transferências entre familiares, pagamentos e outras operações financeiras. Contudo, a utilização frequente de uma carteira digital não significa que o consumidor já a considere adequada para todas as suas despesas.
Segundo os dados citados pela ICTworks, os pagamentos a comerciantes cresceram 42% em 2025, atingindo 155 mil milhões de dólares. No mesmo período, os pagamentos de facturas aumentaram 8%, aproximando-se dos 99 mil milhões de dólares.
Na África Subsaariana, o valor dos pagamentos de facturas cresceu apenas 6%. A região concentra mais de dois terços do valor mundial destas operações realizadas através de dinheiro móvel, segundo a mesma publicação.
A análise de cinco anos de dados da GSMA, atribuída a Samora Kariuki, da Frontier Fintech, indica ainda que as facturas passaram de 5% para 4% do valor mensal movimentado pelo dinheiro móvel entre 2020 e 2025.
A ICTworks cita também o Global Findex 2025, do Banco Mundial. O estudo indica que apenas 40% dos adultos que pagaram uma factura de serviços essenciais em economias de rendimento baixo e médio utilizaram um meio digital.
Estes números mostram que a digitalização dos pagamentos não avança ao mesmo ritmo em todas as categorias. Transferir dinheiro entre pessoas é uma operação diferente de pagar uma factura que exige a confirmação de uma empresa ou entidade pública.
As facturas de água e electricidade representam, por isso, uma oportunidade relevante. São despesas recorrentes, previsíveis e necessárias para a maioria dos agregados familiares e para muitas empresas.
Quando os consumidores conseguem liquidá-las digitalmente, os serviços financeiros passam a integrar uma actividade regular da sua vida económica.




