Circle prepara entrada em 40 novos mercados e acelera expansão da stablecoin USDC

Dioko
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A Circle, empresa norte-americana que emite a stablecoin USDC, prepara a entrada em cerca de 40 mercados emergentes e em desenvolvimento. O anúncio foi feito pelo presidente executivo e co-fundador, Jeremy Allaire, em declarações à Reuters, à margem das reuniões do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, em Banguecoque. A iniciativa procura ampliar a presença internacional da empresa numa fase em que as stablecoins ganham espaço nos pagamentos e nas transferências transfronteiriças.

Allaire considera que o sector está a passar da fase inicial de adopção da tecnologia blockchain para uma etapa de expansão comercial. Segundo o executivo, a procura cresce no Sudeste Asiático, na América Latina, em África e no Médio Oriente. Pessoas e empresas procuram instrumentos digitais que facilitem a participação numa economia cada vez mais conectada à Internet.

A Circle ainda não identificou publicamente todos os mercados abrangidos pelo plano, nem apresentou um calendário detalhado para cada entrada. Por isso, o anúncio representa uma intenção de expansão, não a confirmação de que os serviços já estão disponíveis nos 40 países.

USDC procura ganhar espaço nos pagamentos internacionais

O principal activo da estratégia é o USDC, uma stablecoin concebida para manter paridade com o dólar norte-americano. Ao contrário de criptoactivos como Bitcoin, cujo preço varia livremente, o USDC procura manter uma relação de um para um com o dólar, apoiada por reservas denominadas nessa moeda. A Circle publica informações sobre essas reservas e divulga relatórios de verificação independente.

A stablecoin funciona sobre redes blockchain compatíveis e permite transferir valor sem depender exclusivamente dos horários e dos processos tradicionais de liquidação bancária. Essa característica pode torná-la útil em operações internacionais, sobretudo quando empresas precisam de movimentar fundos entre diferentes mercados.

No entanto, a transferência de USDC não garante, por si só, que o destinatário consiga converter o activo imediatamente em moeda local. Essa possibilidade depende de intermediários, instituições financeiras, prestadores de conversão e regras aplicáveis em cada jurisdição.

A expansão da Circle pretende aproximar o activo de mais utilizadores e empresas. Para alcançar esse objectivo, a empresa precisa de estabelecer relações com instituições locais, desenvolver canais de entrada e saída de fundos e cumprir os requisitos regulatórios de cada mercado.

Os números revelam a dimensão da oportunidade

A dimensão do USDC ajuda a explicar a aposta da Circle. No segundo trimestre de 2026, o valor em circulação atingiu 73,3 mil milhões de dólares, um crescimento de 19% face ao período homólogo. A empresa também reportou 14,8 biliões de dólares em volume de transacções on-chain durante o trimestre, mais 151% do que um ano antes. Estes são indicadores divulgados pela própria Circle nos seus resultados financeiros.

A Circle detém uma posição relevante no mercado das stablecoins, mas enfrenta um concorrente de grande dimensão. Segundo a Reuters, o USDC representava aproximadamente 25% do mercado global, enquanto o USDT, emitido pela Tether, detinha perto de 60% na altura da reportagem.

A expansão geográfica pode ajudar a Circle a conquistar novos utilizadores e a reforçar a utilização do USDC em pagamentos comerciais. Contudo, a disponibilidade de um activo digital não se traduz automaticamente em adopção. As empresas precisam de encontrar vantagens claras em relação aos métodos de pagamento que já utilizam.

Os factores decisivos incluem custos totais, velocidade de liquidação, facilidade de conversão, previsibilidade regulatória e capacidade de resolver problemas quando uma operação falha. A confiança dos clientes e a qualidade dos parceiros locais também terão um papel determinante.

Oportunidades para África

África pode beneficiar de soluções que reduzam fricções nos pagamentos internacionais. Muitas empresas que operam em vários países enfrentam processos complexos para pagar fornecedores, receber receitas ou movimentar fundos entre contas em diferentes moedas.

Uma infra-estrutura baseada em stablecoins pode oferecer liquidação digital contínua e facilitar a integração entre plataformas financeiras. Para empresas de comércio electrónico, prestadores de serviços digitais e operadores internacionais, essa possibilidade pode melhorar a gestão de tesouraria e reduzir a dependência de alguns processos bancários tradicionais.

As oportunidades, contudo, variam de país para país. A utilização de uma stablecoin depende da legislação local, da disponibilidade de prestadores autorizados, do acesso a contas bancárias e dos mecanismos de conversão para moeda nacional.

Também é importante distinguir pagamentos comerciais de operações especulativas. O uso de USDC para liquidar uma factura não é equivalente à compra do activo com a expectativa de obter ganhos financeiros. Cada finalidade exige controlos e avaliações de risco adequados.

A expansão da Circle poderá estimular a concorrência entre emissores de stablecoins, bancos, fintechs e empresas de pagamentos. Mas o resultado dependerá da capacidade de oferecer serviços úteis, acessíveis e compatíveis com as necessidades das empresas locais.

O que está em causa para Angola?

Para Angola, a expansão anunciada pela Circle é relevante como sinal de evolução do mercado internacional de pagamentos digitais. Não significa, porém, que a empresa tenha confirmado a entrada no país ou que os serviços de USDC estejam disponíveis localmente através de canais autorizados.

  • O primeiro ponto a considerar é o enquadramento regulatório. A Lei n.º 11/24 estabelece competências de regulação e supervisão dos prestadores de activos virtuais, atribuindo ao Banco Nacional de Angola responsabilidades relacionadas com criptomoedas e à Comissão do Mercado de Capitais competências relativas a outros activos virtuais. Qualquer expansão para Angola teria, por isso, de considerar as exigências aplicáveis às actividades concretas, incluindo a prestação de serviços, a conversão de activos e a prevenção do branqueamento de capitais. A classificação e o tratamento regulatório de cada serviço devem ser avaliados pelas autoridades competentes;
  • O segundo ponto é económico. Um activo indexado ao dólar pode interessar a empresas com fornecedores ou clientes internacionais, mas não elimina o risco cambial nem substitui as regras aplicáveis às operações em moeda estrangeira. Também não garante acesso a dólares bancários ou conversão imediata em kwanzas;
  • O terceiro ponto é a protecção do utilizador. A utilização de stablecoins envolve riscos relacionados com plataformas de custódia, perda de chaves privadas, transferências irreversíveis, fraudes e falhas operacionais. A paridade pretendida com o dólar também depende da qualidade das reservas, dos mecanismos de resgate e da confiança no emissor.

Para as fintechs angolanas, a questão estratégica consiste em acompanhar a evolução destas infra-estruturas e avaliar, dentro das regras aplicáveis, se podem contribuir para pagamentos internacionais mais eficientes. A prioridade deve ser identificar necessidades reais do mercado, em vez de adoptar tecnologia apenas por acompanhar uma tendência global.

A expansão dependerá da confiança e da regulação

A intenção da Circle de entrar em cerca de 40 novos mercados confirma a ambição de transformar o USDC numa infra-estrutura de utilização mais ampla. A aquisição proposta da Tazapay e o reforço da parceria com a Binance mostram que a empresa procura combinar o activo digital com canais de distribuição e mecanismos de pagamento.

O sucesso dependerá, no entanto, de mais do que crescimento geográfico. A empresa terá de demonstrar que consegue operar de forma compatível com as regras locais, assegurar canais fiáveis de conversão e responder às necessidades de empresas e consumidores.

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